Saúde

Médicos de IA Lucram Milhões com Curas Falsas e Enganam Milhares de Pessoas nas Redes Sociais

Um novo e perigoso modelo de negócio tem florescido nas redes sociais, utilizando inteligência artificial para criar “médicos” fictícios que prometem curas milagrosas para uma série de doenças. Esses personagens virtuais, com vozes e imagens geradas por computador, acumulam milhões de visualizações e engajamento, atraindo pessoas vulneráveis em busca de alívio para problemas de saúde.

Um exemplo notório é um “médico” que apareceu no TikTok, defendendo o suco de batata como um tratamento para gastrite, azia e a bactéria H. pylori. Com alegações como “esqueça a endoscopia” e “alívio mágico”, o personagem obteve 2,2 milhões de visualizações antes de ser removido da plataforma. No YouTube, um robô com traços orientais prometeu curar catarata com uma mistura de alho, limão e mel, afirmando que a receita recuperaria a visão perfeita sem cirurgia, alcançando 1,2 milhão de visualizações. A medicina real, porém, confirma que apenas a intervenção cirúrgica cura a catarata.

A estratégia desses criadores de conteúdo é clara: misturar fragmentos de informações verdadeiras com soluções sem qualquer embasamento científico para criar narrativas de apelo fácil. O objetivo é claro: monetizar a desinformação. As redes sociais como TikTok, Instagram, Facebook e YouTube funcionam como vitrines, direcionando o público para grupos fechados no Telegram, onde a venda de produtos supostamente milagrosos é o próximo passo. Suplementos minerais, dióxido de cloro e zeólita são vendidos como curas para diversas enfermidades.

Mario Aquino Alves, coordenador do Desinfo.Pop (Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas) da FGV, explica que o avanço da inteligência artificial barateou a produção desse tipo de conteúdo, democratizando o modelo de negócio. “Qualquer pessoa interessada em faturar com a monetização de suas publicações nas redes pode replicar o sistema”, afirma.

O modelo de negócio se divide em duas etapas. A primeira é a receita gerada pelo alcance das visualizações, onde plataformas como o TikTok remuneram criadores com base em seguidores e visualizações. A segunda é a venda direta de produtos, transformando o medo e a desconfiança em oportunidade de lucro.

Pesquisas do Desinfo.Pop revelam a dimensão do problema na América Latina e no Caribe. Publicações sobre diabetes em grupos conspiracionistas acumularam 106 milhões de visualizações entre 2016 e 2025, com mais de um terço circulando em comunidades dedicadas ao charlatanismo. No mesmo período, 47 mil postagens sobre autismo no Telegram alcançaram 4,2 milhões de usuários.

Os alvos principais são pessoas que desconfiam da ciência e cujas convicções são reforçadas por esses conteúdos. “É um sistema que se retroalimenta”, pontua Aquino Alves.

A reportagem identificou três formatos principais de conteúdo médico falso gerado por IA: simulações de médicos humanos, animações com personagens caracterizados como profissionais de saúde e desenhos animados onde órgãos e ingredientes “falam” diretamente com o usuário. Alguns perfis mesclam os três formatos para ampliar o alcance.

Após ser questionado pela reportagem, o TikTok removeu alguns perfis e afirmou que sua política proíbe desinformação em saúde que possa causar danos significativos. O YouTube declarou que a IA é uma ferramenta como qualquer outra e que o conteúdo deve seguir suas diretrizes. A Meta, responsável pelo Facebook e Instagram, também disse combater a desinformação prejudicial à saúde.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) está se preparando para combater o problema com uma plataforma de inteligência artificial, prevista para ser lançada em junho, que vasculhará as redes em busca de conteúdos nocivos. A ferramenta automatizará a identificação de invasões do ato médico e conteúdos prejudiciais, que serão posteriormente analisados por humanos e, se confirmados, encaminhados aos órgãos competentes.

O Telegram, procurado pela reportagem, não respondeu até a publicação. A falta de regulamentação efetiva e a velocidade com que a desinformação se espalha nas redes sociais continuam sendo um desafio para a saúde pública.