Coca-Cola descobre que, no capitalismo brasileiro, até figurinha vira alvo de “privatização” informal
A tentativa da Coca-Cola de transformar seus refrigerantes em uma extensão do álbum da Copa do Mundo acabou produzindo um efeito colateral digno de estudo sociológico: consumidores passaram a violar os rótulos das garrafas dentro dos supermercados para retirar as figurinhas promocionais, deixando para trás produtos danificados e encalhados nas prateleiras.
A promoção, realizada em parceria com a Panini, inseriu figurinhas de jogadores nos rótulos de garrafas de Coca-Cola. O problema é que muita gente resolveu pular a etapa da compra. Em vez de levar o refrigerante para casa, arrancou apenas o que interessava: a figurinha. O resultado foi uma onda de embalagens violadas, sem código de barras e impossibilitadas de serem vendidas.
Diante do prejuízo, a multinacional passou a recolher os produtos danificados e a ressarcir os varejistas. Especialistas avaliam que a empresa assumiu o risco ao criar uma campanha que transformou o próprio rótulo em objeto de desejo, incentivando a manipulação das embalagens nos pontos de venda.
Enquanto a Coca-Cola afirma que a ação tem sido bem-sucedida desde a Copa do Catar e que os casos representam uma minoria, supermercados reforçaram medidas de controle para tentar conter os furtos. Já quem for flagrado arrancando rótulos pode responder por dano ao patrimônio e furto, além de ser obrigado a indenizar os prejuízos causados ao estabelecimento.
No fim das contas, a campanha que pretendia aproximar consumidores do espírito da Copa acabou revelando uma velha contradição do mercado: quando a figurinha passa a valer mais do que o produto que a acompanha, não faltam candidatos a transformar a “promoção” em uma espécie de reforma agrária das figurinhas — socializando os brindes e privatizando os prejuízos.






