Política

Damares e Erika Hilton: O Poder das Minorias na Disputa pela Democracia Brasileira

A ascensão de figuras como Damares Alves e Erika Hilton ao centro do debate político brasileiro, apesar de suas agendas aparentemente irreconciliáveis, revela um fenômeno crucial para a compreensão da democracia contemporânea: grupos sociais que antes eram meros objetos da política agora se tornam sujeitos ativos na disputa por seus direitos e representatividade.

A trajetória de Damares Alves, ancorada em redes evangélicas conservadoras e na defesa da família tradicional, não se explica apenas pelo crescimento numérico desse segmento. É fruto de décadas de organização religiosa, formação de lideranças e ocupação gradual de espaços institucionais. Da mesma forma, Erika Hilton, porta-voz do movimento LGBTQIA+ no Congresso, emerge não apenas da maior visibilidade da comunidade, mas também de uma intensa articulação de movimentos sociais, organizações civis e processos de formação política que transformaram experiências historicamente marginalizadas em força institucional.

O exemplo da mobilização contra a escala 6×1 de trabalho ilustra essa transformação. Por anos, a exaustão de milhões de trabalhadores foi naturalizada. A demanda ganhou força e espaço no debate nacional quando encontrou representação política, convertendo uma experiência coletiva em pauta institucional. Essa é uma lição fundamental: direitos e reivindicações avançam quando há organização capaz de transformá-los em disputa política.

Recentemente, a controvérsia em torno da resolução do Conanda sobre o atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual também demonstra essa dinâmica. Organizações feministas e de direitos humanos veem a decisão do Senado como um retrocesso, enquanto seus defensores a encaram como uma correção institucional. O ponto central não é quem está certo, mas sim a disputa pelo poder de definir como a proteção deve ocorrer e quais interpretações sobre família, infância e direitos se tornarão matéria legislativa.

A democracia se fortalece quando diferentes grupos disputam legitimamente o direito de representar suas experiências e influenciar os rumos do país. A ascensão de lideranças conservadoras, a ampliação da representação LGBTQIA+ e a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho não são sinais de fracasso democrático, mas sim de um processo de complexificação onde grupos historicamente sub-representados compreendem que participar da política é disputar o poder de definir quais experiências sociais serão reconhecidas e transformadas em direitos.

A questão final é: quem detém a autoridade para definir o significado dos direitos que moldam a vida pública? A resposta reside na capacidade de organização e na disputa política dos diversos grupos sociais.

* Jamille Narciso Bezerra é Doutoranda em Ciências Sociais pela PUC-Rio e pesquisadora das relações entre religião, política e gênero no Brasil contemporâneo.