Cedae Investe Milhões em Banco de Bispo Macedo com a Sinais de Colapso Financeiro
A Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), estatal de saneamento básico, realizou investimentos vultosos, na ordem de dezenas de milhões de reais, no Banco Digimais, instituição financeira pertencente ao polêmico bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).
As operações financeiras foram orquestradas por um diretor indicado pelo ex-governador Cláudio Castro (PL). Desde junho de 2025, Antonio Carlos dos Santos, nomeado por Castro para a Diretoria Financeira e de Relações com Investidores (DFI) da Cedae, efetuou diversas aplicações em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Banco Digimais. O grave é que essas aplicações foram mantidas e renovadas mesmo diante de fortes indícios de que a instituição financeira estaria à beira da quebra.
Somente em um momento posterior, os recursos passaram a contar com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Antes mesmo de assumir sua posição estratégica na Cedae, Antonio Carlos dos Santos ocupava o cargo de assessor-chefe do gabinete de Cláudio Castro no Palácio Guanabara. Sua indicação para a estatal foi pessoal do ex-governador, colocando-o em uma posição chave para assinar contratos e tomar decisões sobre investimentos em instituições financeiras. Santos foi o principal responsável pela aplicação de mais de R$ 200 milhões no Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Em resposta às denúncias, a Cedae declarou que uma de suas primeiras ações sob a nova administração foi a alteração da Política de Aplicações Financeiras, visando aprimorar a governança, o controle e mitigar riscos. A estatal assegura que os investimentos no Banco Digimais não serão renovados e os valores serão realocados em instituições financeiras de maior solidez no país.
Por outro lado, Antonio Carlos dos Santos defende que todas as suas alocações financeiras estavam em conformidade com a política da Cedae e que as decisões de investimento seguiram as normas de governança, com aprovação das instâncias competentes, incluindo o Conselho de Administração e o Comitê de Auditoria. Ele nega qualquer interferência externa ou política em suas decisões.
As aplicações no Banco Digimais chegaram a R$ 91,2 milhões. As regras de investimento foram flexibilizadas de forma peculiar, permitindo aportes em bancos com rating baixo, como o Digimais. Enquanto a Cedae exigia uma avaliação mínima de A- para investimentos, o banco de Edir Macedo possuía ratings como BBB- da Fitch e Moody’s, o mais baixo considerado grau de investimento. Essa flexibilização ocorreu pouco antes dos investimentos no banco de Daniel Vorcaro.
O primeiro aporte milionário no Digimais ocorreu em junho de 2025, em um momento em que a Cedae já enfrentava um possível calote do Banco Master. A nota técnica favorável à aplicação no Digimais foi assinada por Santos e seus assessores, os mesmos que o auxiliaram nas operações com o Banco Master. O investimento inicial foi de R$ 35 milhões, com a justificativa de que o volume estaria abaixo do limite de R$ 40 milhões com garantia especial do FGC.
Uma nova remessa de R$ 25 milhões foi realizada em agosto do mesmo ano, com prazo de resgate ainda maior e rentabilidade prometida de 109% do CDI. As regras estabelecidas por Santos permitiam o investimento de até 10% da carteira da Cedae em bancos com rating BBB-. Após o calote do Banco Master, o Digimais foi o único banco com esse perfil a receber recursos da estatal.
A situação do Banco Digimais se agravou, com tentativas frustradas de venda e a necessidade de injeção de mais de R$ 700 milhões por parte de Edir Macedo. Mesmo diante desse cenário, Santos e sua equipe continuaram recomendando a manutenção dos investimentos. Em fevereiro de 2026, o Comitê de Auditoria da Cedae expressou preocupações sobre os investimentos no banco de Macedo, questionando a possibilidade de realocação para instituições com melhor rating.
Apesar das ressalvas e de uma auditoria independente ter sido contratada, a Cedae buscou o resgate das aplicações, mas os valores não foram recuperados a tempo. Em março de 2026, uma nota técnica da DFI classificou a situação do Digimais como “negativa”, com prejuízos acumulados e forte dependência de depósitos a prazo. Contudo, a manutenção dos investimentos foi defendida, com o FGC como fator mitigante, cobrindo cerca de R$ 39 milhões aplicados na época.
O quadro se tornou ainda mais crítico com o rebaixamento da nota do Digimais pela Fitch para BB- e, posteriormente, pela Moody’s para CCC+, indicando risco iminente de calote. Relatórios apontaram um aumento significativo no risco dos ativos do banco, com grande exposição a fundos de investimento alternativos e incertezas sobre a recuperabilidade desses investimentos. A política de aplicações financeiras da Cedae, em vigor na época, vetava investimentos em instituições com notas tão baixas, mas os contratos impediram o saque imediato.






